quinta-feira, 20 de abril de 2017

Pomba e serpente e a esfinge dialética de Jesus

De qual pássaro seriam as asas do caduceu de Hermes ?
Poderiam ser de uma pomba ?
Menciono o caduceu de Hermes porque é o objeto que ilustra a notável citação de Jesus no Evangelho de Mateus 10: “Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede astutos como as serpentes e inofensivos como as pombas.” Mateus 10:16
Ser astuto a ponto de se defender do mal e não para praticá-lo é o que todos esperam dos médicos ao conhecerem toda sorte de venenos e não se disporem a envenenar seus desafetos.
As asas da pomba trazem uma ternura que as asas da águia de Roma não trazem, no entanto, a pomba que simboliza o Espírito Santo no momento do batismo de Jesus no Rio Jordão também sugere em hebraico o nome de Jonas, o profeta rancoroso e desobediente.
Há uma proximidade entre o universo grego e hebreu inegável, pois do Egito deriva grande parte de suas erudições.
Para um judeu da Galileia, região próxima dos portos de Tiro e Sidon, às margens de Damasco e num dos extremos da rota da seda, seria usual o contato com tais fusões de símbolos e narrativas.
Mais do que a cruz o caduceu de Hermes seria a melhor identificação para o cristianismo se tomarmos Mateus 10 como síntese do cristianismo, uma vez que é a parte do Evangelho em que Jesus instrui os 12 apóstolos como procederem durante a evangelização, pois não é Hermes o portador de boas novas ?
E a cruz ?
Além da crucificação não ter sido uma punição exclusiva a Jesus ela expõe uma ironia: a cruz é o fim de todo carpinteiro !
Podemos ser a origem do nosso próprio mal por simples dinâmica da dialética e nada nos isenta de tomadas de decisão e da suas consequências.
Adquirir conhecimentos como a serpente para se defender do mal e adquirir conhecimentos como a pomba para não praticar o mal: tal era um dos objetivos do magistério de Jesus.
Em que momento um instrumento benéfico deixa de produzir o bem e começa a produzir efeitos indesejáveis ?
Como a dialética é a capacidade de perceber este momento a sensibilidade precisa ser exercitada.
O método de vigiar, orar e jejuar ! Isto é, observar, refletir e esvaziar-se dos rancores devem ser as práticas diárias de um cristão em busca da verdade e da liberdade para usufruir da vida (zoé) em abundância.
Já é tempo de deixarmos o culto mórbido da cruz e adotarmos a prática da comunicação do caduceu ágil como as serpentes para que a doce mensagem das pombas chegue antes que a mensagem ferina das águias porque ceus e terras passarão mas as palavras de Jesus não passarão.
Ouça a voz do vento em suas orações e o farfalhar das folhas porque os eleitos abreviarão os dias de dores.
Não se abale, porque faz parte do desafio sermos ovelhas entre lobos !
Substitua a dor da cruz pela esfinge da dialética, uma água da qual quem dela beber jamais sentirá sede novamente !

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