sábado, 18 de março de 2017

A covardia é o pecado original

Você se considera um leitor ?
Pergunto isso porque analfabeto funcional não existe, este termo é um eufemismo para analfabetos. De qualqer forma, isso atesta que ler se aprende lendo !
Você lê com alguma regularidade ?
Na hierarquia dos livros qual seria o mais importante ?
Para um cristão seria a Bíblia ?
Eis o primeiro problema porque a Bíblia não é um livro !
A Bíblia é um conjunto de livros, normalmente, oferecidos na mesma encadernação.
O mais certo é considerar que a Bíblia seja uma biblioteca.
O segundo problema é que esta biblioteca varia conforme o cânone a que esteja submetida.
A quantidade de livros é diferente caso seja uma Bíblia católica apostólica romana ou católica ortodoxa ou protestante.
Qual seria a Bíblia correta, isto é, a compilação de livros mais sagrada ?
Sem a possibilidade de conferir qual seja prevaleceu o fio da espada do supervisor com maior exército.
Mais sensato seria considerar que o Deus cristão é o Deus da diversidade, mas as acusações de heresia, blasfêmia ou apostasia não tardariam como nunca tardaram.
Superando as controvérsias iniciais outros problemas se apresentam e o fator principal sempre será a habilidade de leitura do devoto.
Uma questão importante é: um Deus onisciente precisa de supervisores ?
De fato, se o Criador onisciente não carece de supervisores os supervisore foram autoproclamados e aceitos pela pusilanimidade da tradição.
Se existe uma Bíblia em sua estante por que você não a lê ?
Simplesmente porque você não está autorizado e caso tenha a petulância de lê-la a sua leitura será reprimida pelo catecismo dos supervisores.
O perverso mecanismo consiste em que um leitor iniciante é inseguro (por ainda estar em contato com os fragmentos e não conseguir contemplar o todo da instrução) e procurará o aconselhamento de alguém supostamente mais habituado na leitura. Confiamos nos instrutores autorizados pelos supervisores dada à perseguição aos divergentes.
Mas, é suficiente ler ! Uma vez que a palavra Lei significa ‘aquilo que deve ser lido!
Grande parte da insegurança do leitor iniciante provém da insufuciência de vocabulário.
Outro problema é o aspecto cronológico. Fomos condicionados a aceitar que o começo esteja sempre no começo. Porque a falta de experiência nos faz confundirmos narrativa com enredo, enredo com conteúdo e conteúdo com instrução.
Por isso, confiamos num instrutor ! É sábio esperarmos a instrução de alguém mais experiente, mas quem seria este instrutor confiável ?
O Evangelho responde: Jesus ! Jesus é o único Mestre. Se nenhum discípulo é maior do que o Mestre, então, comece pelo Evangelho.
Ao adotar Jesus como o caminho, a verdade e a vida é importante observar que Jesus confrontou a hipocrisia das autoridades e instrutores de sua época.
Portanto, se existe uma imitação de Cristo a ser levada a cabo ela consiste em colocar à prova as autoridades e seus instrutores delegados.
Aos poucos, compreendemos que a verdade é um contínuo dia do juízo, ou seja, a incansável verificação se a aparência revela a essência dos fatos porque o Criador se auto definiu como ‘ser aquilo que é’.
É o preço a pagar por saborear o fruto do bem e do mal. Desde o momento em que identificamos algo como bom ou mau perde-se o paraíso da inocência até o ponto de Salomão afirmar a infelicidade de que quanto maior fosse a ciência maior seria o enfado.
De qualquer ser constituído de curiosidade (esta centelha divina) é previsível a desobediência, tal como aconteceu com Adão.
O Criador onisciente não ficou aborrecido pela ordem de efeitos concatenados e subsequentes, pois ao determinar o que não deve ser feito foi o mesmo que convidar Adão para fazê-lo. O motivo do aborrecimento não foi a desobediência mas a tentativa de Adão fugir quando o Criador o procurou e ao ser questionado pelo acontecimento mais uma vez tentar eximir-se da responsabilidade ao atribuir a iniciativa à Eva e esta, também temorosa por uma possível punição, defender-se ao atribuir a responsabilidade à serpente. Foram Adão e Eva covardes, obviamente zelosos pela autopreservação, por não assumirem o erro e inutilmente tentar transferir a responsabilidade a outros como se fosse possível ludibriar o juiz em vez de esperar pela compaixão do Pai.
Aos curiosos é instigante constatar que a serpente não rastejava antes de ser punida.
Rastejar-se ou se esgueirar é moldar-se a algum suporte ou relevo com a intenção de confundir quem observa. Não só é deixar de se ser o que se é como também contaminar o ser de outro ser, distanciando a aparência da essência da perfeita Criação.
O escolhido para ser o senhor da Criação foi incapaz de sustentar a altivez do bípede para imitar um ser rastejante e dissimulado. Seu artifício foi apequenar-se debaixo de uma folha de videira.
Necessário comentar que, depois do episódio, o Criador conferiu à serpente uma aparência mais condizente com a própria essência. A astuta serpente atestou uma distração do Criador com suas criaturas, que de pronto, após apurada verificação, fora corrigida.
O que há de perfeito da Criação é a predisposição para autocorrigir assim que o erro seja identificado.
A covardia é o pecado original porque origina outros pecados tais como a mentira, frágil agasalho de todos os erros e moeda podre de todas as relações.
A covardia, seja in natura ou na sua versão sofisticada de hipocrisia, é o verme que rasteja, que por rastejar, consome a dignidade da criatura feita à imagem e semelhança do Criador.
Moral da história: fugir apenas adia, e, por adiar, torna mais doloroso o momento da verdade.
Jamais transfira a outros a dádiva de ser aquilo que se é !

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