sexta-feira, 5 de abril de 2013

O Reino dos Ceus é dos perseguidos pela justiça

Novamente a palavra justiça e suas várias interpretações, mas aqui num contexto bastante intrigante. Se a justiça é o que devemos fazer, como explicar que o maior prêmio, o Reino dos Ceus, é para quem é perseguido por ela?

Espera-se que a justiça persiga quem cometeu um crime, mas perseguiria inocentes? Sabemos que isso ocorre! Seria esta a intenção de Jesus? Mas a presunção de inocência não está expressa no texto. Em inglês repete-se, no lugar de justiça, a palavra 'righteousness' que significa retidão. Em grego a palavra é 'dikaiosune', que funde as ideias de estrutura do judiciário e retidão como pureza de pensamento, de sentimento e de ação para merecer a salvação.

A ideia continua em contradição: quem é perseguido pela pureza de pensamento, de sentimento e de ação merece o Reino dos Ceus? Creio que o desfecho do nó possa estar na palavra perseguido ou perseguição. Quem é perseguido é alguém procurado com insistência e a contra gosto, caçado, molestado, incomodado, ofendido. A pureza ofende e persegue? Numa crise de consciência talvez!

A pureza enquanto assepsia exercida de fora para dentro pode caçar quem não é considerado puro. E já conhecemos aonde esta sanha de purificar o indesejável pode nos levar. Para a fogueira!

Perseguidos por um aparato policial oficialmente constituído e por quem se auto declara defensor do que é correto e puro. Também conhecemos a grande violência advinda desta pretensão. Tudo nos leva a questionar o ideal de pureza. Só no dicionário há um rosário de definições e todas elas de cunho paralisante. Aquilo que é puro é sem mistura, límpido, genuíno, virginal, imaculado, inocente, casto, verdadeiro, natural, exclusivo, único, sincero, suave, correto, irrepreensível, mavioso e incontestável, fiel e exato. Ser considerado puro é um grande diploma de autoridade. Não estou dizendo que estas qualidades não devam ser cultivadas e Jesus muito menos diria também, porém, com um mínimo de sensatez, sabemos que dificilmente alguém sustentaria todas estas qualidades e se a perda de apenas alguma delas tira a autoridade de quem é reconhecido ao possui-las podemos perceber que toda esta exigência é um solo fértil para a mentira e hipocrisia. Jesus perdoava o pecador, mas não tolerava o hipócrita.

A expectativa é tão gigante que correspondê-la ou ser percebido como alguém que seja incapaz ou desinteressado em corresponder é um prato cheio para quem persegue e um tormento para quem é perseguido. Nem precisamos nos estender que muitos, por falta do que fazer, tomam isso como diversão ou oportunidade de opressão.

Os nossos valores nos predispõem ao arrependimento, os nossos pensamentos puros, ou seja, o nosso próprio senso de justiça, nos perseguem e o perdão de Deus nos espera, portanto é dos perseguidos o Reino dos Ceus se assim entendermos.

Entretanto, estamos sempre sujeitos ao julgamento dos demais e oprimidos por opiniões e valores que não compartilhamos. Neste caso, cabe aos perseguidos por uma justiça nebulosa e por interesses inconfessáveis perdoarem, porque deles já é o Reino dos Ceus.



Hy Ho!

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