terça-feira, 9 de abril de 2013

As bem-abenturanças são um mapa mental para praticar o perdão

Sou um defensor da livre interpretação da Bíblia, o que não quer dizer que podemos interpretá-la de qualquer jeito! Observações entre a realidade, comportamento do ser humano, costumes sociais e os ensinamentos que o texto nos traz ajudam a chegar a algumas deduções.

Jesus nos recomenda para não jogarmos pérolas aos porcos, portanto é fato que não dizia tudo o que sabia para todos. O Mestre era bastante seletivo! Este perfil é confirmado com a sentença: muitos são os chamados e poucos os escolhidos, a observação de entrar pela porta estreita e de nada explicar aos corações endurecidos. Sim, Jesus é acolhedor, mas somente com quem assume um compromisso com o Reino dos Ceus.

O Reino dos Ceus é um projeto! O Evangelho é o registro das práticas de Jesus, o Mestre, que nos ensinou como realizá-lo. Aos melhores discípulos os melhores ensinamentos. Jesus era muito prático. Sabia que não dispunha de muito tempo para o seu magistério. Para complicar não gozava de quase nenhuma privacidade, por isso o cuidado de usar alegorias.

Creio que o episódio da explicação da parábola do semeador ilustre de modo satisfatório o que me proponho a dizer sobre as bem-aventuranças no início do sermão do monte serem a sequência de etapas de um mapa mental para praticar o perdão.

Vamos observar a singularidade do uso da expressão 'bem-aventurados'.

Quando os discípulos questionaram Jesus o motivo de Ele discursar à multidão por parábolas o Mestre respondeu: "bem-aventurados, porém, os vossos olhos, porque vêem; e os vossos ouvidos, porque ouvem. Pois em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não viram; e ouvir o que ouvis e não ouviram."

A expressão 'bem-aventurado', macário no original grego, é usada algumas vezes pelo Evangelho em situações dispersas, isso pode nos dar a entender que fosse até uma maneira de tratamento entre o Mestre e os discípulos, de identificação, de intimidade ou distinção,talvez para os mais próximos do Mestre.

Voltando ao início do sermão do monte no Evangelho de Mateus é interessante notar  as bem-aventuranças aparecem reunidas numa série com 9 frases e no Evangelho de Lucas a sequência é repetida de modo resumido tanto em quantidade como na forma das frases, isto é, com 4 frases, porém, dado ao resumo, o sentido das frases destoam quando comparadas. O que permanece sem alteração é a exortação final e o motivo do prêmio.

1) Se a sequência é lembrada em detalhes podemos deduzir que fosse uma prática recorrente pronunciá-la.

2) Mateus foi um dos 12 apóstolos que conviveram com Jesus e Lucas não. Por isso, deduzo que Lucas conhecia as bem-aventuranças já resumidas pela transmissão oral de terceiros.

Feitas estas considerações creio que podemos expor o mapa mental:

São 9 frases, que a princípio, são contraditórias, mas que se tornam coerentes se forem divididas em 3 blocos e mantendo a sequência exposta no Evangelho de Mateus:

1° bloco

a) O Reino dos Ceus é dos humildes de espírito;

b) Os que choram serão consolados;

c) Os mansos herdarão a terra;

2° bloco

d) Os que têm fome e sede de justiça (retidão) serão fartos;

e) Os misericordiosos alcançarão misericórdia;

f) Os limpos de coração verão a Deus;

3° bloco

g) Os pacificadores serão chamados filhos de Deus;

h) O Reino dos Ceus é dos perseguidos pela justiça (retidão);

i) Bem-aventurado quem for injuriado, perseguido e alvo de mentiras por minha causa.

A série é completada pelas felicitações 'regozijai-vos' e 'exultai' do Mestre para confirmar a recompensa ao concluir o exercício.

Observando o conjunto percebemos uma incoerência sobre a questão da justiça (retidão) no 2° e no 3° blocos. O bloco 2 abre afirmando que quem tem sede e fome de justiça (retidão) será farto e no bloco 3 está no centro a frase afirmando que o Reino dos Ceus é dos perseguidos pela Justiça (retidão). à primeira vista é uma contradição. Mas, logo adiante, no próprio sermão do monte Jesus expõe o que ele pensa sobre justiça (retidão) : "Guardai-vos de exercer a vossa justiça (retidão) diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte não tereis galardão junto de vosso Pai celeste."

Há uma distinção entre fazer justiça sem conferir autoridade para outras pessoas e fazer justiça para se exibir, portanto, a série é um exercício individual cuja satisfação deve ser dada somente a Deus.


O 1° bloco descreve  a recepção da ofensa:

 a) quem está no Reino dos Ceus em quase nada se perturba com as preocupações da maioria das pessoas por fama, dinheiro e sucesso. Por isso, é isolado e agredido de diversas maneiras, até sendo identificado como pobre de espírito, ou seja, um tolo.

b) é um valor cultural cristalizado, apoiado no remorso das pessoas, que quem  recebe qualquer  agressão, no primeiro momento, deve entendê-la como um castigo e sentir-se responsável pelos motivos da agressão (ideia de karma, causa e efeito, ação e reação, justiça de Deus);

c) quem permanecer se lamentando perde a vitalidade e se distanciará do Reino dos Ceus. Ao compreender a própria responsabilidade pelos motivos ou circunstâncias por ser agredido é o indicador para interromper as lamentações.


2° bloco descreve o incômodo da agressão dentro de quem a recebe:

d) não reprimir a raiva que sente, deixá-la incendiar dentro de sua alma até o máximo;

e) investigar a responsabilidade do agressor quanto à agressão e compreender a miséria dele;

f) deixar o coração purgar-se espontaneamente para que Deus comece a ser vislumbrado novamente em todos os lugares, aliás este é o indicador que o perdão está florescendo;


3° bloco descreve o gesto de amor que deve alimentar o mundo

g) encontrar soluções espirituais e materiais para que a mesma agressão não se repita com mais ninguém. Os seus gestos serão o maior testemunho da presença de Deus;

h) deixar o agressor ser perseguido pela própria consciência. Também você será cobrado para dar satisfações por não ter devolvido a agressão. A sua honra será 'abalada' e seu 'poder' questionado;

i) na primeira vez o agredido foi  você, neste momento após o exercício, o agredido é o próprio gesto de perdoar, ou seja, a causa de Jesus. Uma revolução aconteceu! Quem perdoa recebe injúrias, é alvo de mentiras e perseguido por não perpetuar o espetáculo de violência. A difamação é a confirmação do êxito.

Não devolver a agressão ao agressor é a única maneira de limpar o coração do mundo. Como se vê, perdoar somente não é o bastante é preciso remover do mundo os motivos da agressão.


É um exercício individual de grande repercussão na comunidade. Oportunidades para praticá-lo não nos falta, infelizmente! Quando somos agredidos todas as emoções se misturam e alinhá-las e cuidar de um passo de cada vez faz muita diferença. Agradeço ao Espírito Santo por ter compreendido isto!

Pelo fato de as pessoas serem incrédulas e terem o coração endurecido seja radiante com a intensidade de um relâmpago para que não pairam dúvidas sobre a sinceridade do perdão!



Hy Ho!

Nenhum comentário: